- “Eu estive doente por uma semana, pode parecer incrível, mas as fadas também têm alergia. Eu te esperei, porém logo fui te procurar em teu reino não achei nada… pensei que você pudesse ter ido a outro reino, arranjado uma sereia… não sei. Comecei a voar pelos bosques sem esperança, apenas pra me distrair minha mente.” Murmurou a fadinha em uma voz tremula.
- “Bem, parece que nos temos um desencontro aqui?!” Falou Berilo chegando bem perto. “Nós tínhamos os mesmos medos, chegamos as mesmas conclusões precipitadas e nos arriscamos por amor.” Ele disse numa voz calma.
- “Bé, eu ainda te amo!” disse a fadinha, que agora encarava os mesmos olhos verde água que ela conhecia. A fadinha agora pode reparar que os arranhões das guelras ainda estavam presentes em seu pescoço.
- “Eu também te amo minha fadinha” disse enquanto alisava o rosto dela.
- “Mas e ela? Vocês não estão juntos?” perguntou a fadinha com uma pontada de esperança
Berilo pareceu pensar por um momento, parecia nervoso, porem respirou e disse:
-“Escute Tis, é uma longa história. Eu a conheci durante minha procura por ti, eu sentia fome e a família dela me deu casa e comida, nós nos tornamos bons amigos. Até que ela apareceu grávida dizendo-me que o amor dela havia a abandonado. Eu senti que devia ajudá-la, nós casamos e viemos morar distante da sua família para que eles não desconfiassem de que a criança não possa ser meu filho. Mas só somos bons amigos Tis, ela sabe que já fui um tritão e sempre soube quem foi meu grande amor, nós respeitamos os nossos amores.” A história fluía dos lábios de Berilo, porem ele ainda parecia nervoso. “Mas antes de se juntar a nós eu gostaria de pedir antes um favor, não é uma condição, é apenas um favor.”
- “De que forma eu posso ajudar.” Murmurou a fadinha, que acreditava na história.
- “Ela quer que você procure pelo amado dela, ela cuidou tanto tempo de mim eu não quero que ela fique sozinha grávida, hoje eu sei que ela o perdoaria.”
- “Sim eu posso amenizar o sofrimento de quem ama, vou fazer o possível.” Disse a fadinha terminada.
Berilo deu as informações que sabia para facilitar a busca de Tis e mostrou um desenho que a sua companheira havia feito dele. Então ele a pegou num beijo arrebatador, ainda com a mesma virilidade do tritão que ela conheceu um dia.
Tis partiu imediatamente seguindo o rumo indicado por Berilo. Ela disfarçou a suas asas para poder andar nos povoados humanos sem ser percebida, levou alguns dias, mas ela achou o rapaz. Ele estava jogado em uma ruazinha em um sono profundo segurando uma garrafa de run. Ao se aproximar a fadinha percebeu que apesar do seu aspecto lamentável, ele era muito bonito. A fadinha deu um ponta pé no rapaz para que pudesse acordar, ele pareceu desorientado. Até que abriu os olhos devagar e cambaleou um pouco ao olhar para cima, seus olhos eram negros exatamente como seus cabelos bagunçados.
- “O que voxe pensa que táá faxendo.” disse ele embriagado ainda.
- “Eu tenho notícias que podem lhe interessar.” Disse a fadinha.
- “Voxcê tem uuuma… garrafa de run ai?” disse o rapaz entre soluços.
-“Não.” respondeu a fadinha.
- “Então… nãão me interrressa.” Disse o bêbado.
- “Nem se forem informações sobre o seu filho.” Jogou Tis.
A reação não foi como Tis esperava, o rapaz arregalou os olhos e logo começou a chorar. Ela o ajudou a levantar e foram até a uma pensão que havia perto dali, a fadinha tinha algum ouro e pediu um quarto para que o rapaz pudesse recompor sua sobriedade. A fadinha esperou até o dia seguinte, o rapaz parecia outro muito mais limpo e de barba feita agora, mas ainda parecia triste e desorientado, ao vê-lo assim a fadinha pode entender porque a linda moça havia se apaixonado. Ele se dirigiu até ela.
- “Yurio” estendeu a mão o rapaz.
- “Acalântis, mas pode me chamar de Tis.” Retribuiu a fadinha.
- “O que você tem para me dizer?” Disse nervosamente o rapaz.
- “Eu vim te buscar para que você possa ver seu filho que estar para nascer.”
- “Meu filho…” pensou ele com um leve sorriso. “Eu pensei que Grazina jamais iria me perdoar… como ela está? É verdade que ela se casou com Berilo?” agora havia um pouco de remorso na voz do rapaz.
- “Ela está bem e casada com Berilo sim, porem eles não passam de bons amigos. Na verdade ela só casou-se com ele porque você havia fugido.”
- “o pai dela me ameaçou e logo depois me subornou para que eu saísse da cidade, ele definitivamente não gostava nem de mim nem da minha família. Eu sabia que seria impossível viver aquele romance em paz, então eu aceitei, para o próprio bem dela. Eu não sabia que ela estava grávida, se não eu teria a levado comigo.” Ele disse levando as mãos a cabeça. “Eu fui covarde. Eu não consegui passar muito tempo longe dela, e voltei para levá-la comigo… então ela já havia ido embora com Berilo.” Disse ele num tom de desespero.
- “Acalme-se Yurio, vai ficar tudo bem, Berilo me disse que ela te perdoa. Eu posso te levar onde eles estão.”
A fadinha levou Yurio aos bosques e revelou suas asas. Contou sobre seu segredo ao belo rapaz. Ela podia movê-lo no ar também. Eles viajaram voando pelos bosques. No caminho a fadinha contou-lhe sobre seu romance e ele pode contar mais detalhes do seu também, crescia aos poucos uma grande amizade.
Depois da pequena viagem eles chegaram até a casinha simpática de Berilo. Eles bateram na porta com ansiedade, mas ninguém atendeu. A fadinha resolveu entrar, a porta estava aberta.
- “Cadê ela Tis?” perguntou Yurio com ansiedade.
- “Devem ter saído apenas por um momento, logo voltam.” Disse a fadinha tentando disfarçar sua angustia ao ver casa vazia, aquela velha sensação de deja vu bateu.
- “Tis, tem um bilhete aqui, ele está com o seu nome.”
Ele entregou o bilhete a ela. Seu coração acelerou e o frio na barriga era inevitável. Ela exitou ao abrir, até que tomou coragem e começou a ler.
Minha fadinha,
Desculpe-me por ter que mentir para você, Grazina realmente esperava um filho de Yurio, o fato é que apesar de descobrir o que seu pai fez ela nunca perdoou nem ele nem o seu pai, e em um gesto de amizade eu não pude abandoná-la, assim que nos casamos para que eu pudesse assumir o filho fugimos e eu contei todo o meu passado de tritão. O tempo foi passando e a amizade se tornou carinho e amor, nós somos parceiros. Eu prometi sempre cuidar dela, uma pessoa que sempre me deu apoio. Nenhum amor comparado a paixão que eu ainda sinto por você. Quando você apareceu veio tudo a tona novamente, mas eu tive que manter minha promessa, o nosso filho já havia nascido. Eu menti quando disse que ela estava grávida ainda. No dia anterior ao que você apareceu nós fomos a uma feiticeira que prometeu transformar no três em tritãos, nós tínhamos planos de nos juntarmos a minha família novamente, ao abandonar o meu reino meu pai disse que me perdoaria pela minha escolha. Eu pensei em desistir do plano quando você apareceu, mas já era tarde, começaram a abrir as guelras do meu pescoço, ontem nos estávamos nos despedindo da terra. A criança vai ser tratada como um tritão. Diga ao Yurio que não vamos mentir sobre o verdadeiro pai. Por isso, eu pedi para você procurá-lo não só para que pudéssemos ir sem magoá-la, mas também para que você tenha alguém ao seu lado. A pesar de tudo eu sempre soube que ele era um ótimo rapaz. Espero que um dia você possa me perdoar por tantas mentiras. Eu continuo te amando e lembrando das nossas tardes de por-do-sol.
Amo-te para sempre,
Do seu tritão, Berilo.
A fadinha não podia sentir-se mais traída. Ela apenas chorava em desespero ao saber que nunca mais iria vê-lo. Seu corpo todo parecia dormente a dor. Ela não sabia o que pensar. Yurio resolveu consolá-la apesar da sua profunda tristeza ao também ler a carta.
E os dias seguiram assim, um consolando ao outro, a amizade já se transformava em carinho. A fadinha nunca esqueceu aquela carta, mas resolveu perdoar o tritão, assim como Yurio perdoou a linda mulher de cabelos loiros. O perdão amenizava a dor que ambos sentiam, então como um acordo eles conformaram-se em se tornar parceiros e passando a sentir amor um pelo outro aos poucos. Eles viveram muitos momentos felizes ao longo da vida e nunca mais tocaram no nome das antigas paixões. A vida passou e a fadinha percebeu que nem mesmo uma fada poderia viver para sempre de um conto de fadas.